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Vinhos de inverno no Cerrado: o DF como nova fronteira da vitivinicultura nacional

2 de julho de 2025
Vinhos de inverno no Cerrado: o DF como nova fronteira da vitivinicultura nacional
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A paisagem agrícola do Distrito Federal começa a ganhar novos tons com o avanço do cultivo de uvas destinadas à produção de vinhos finos. Em áreas como o PAD-DF (Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal), produtores vêm apostando na dupla poda para transformar o Cerrado em uma nova fronteira da vitivinicultura de qualidade.

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Experiência de sucessoVinícola Brasília

Essa tecnologia inverte o ciclo tradicional da videira e permite colher as uvas no período seco. “Acredito muito nessa atividade, principalmente por conta das características do nosso terroir, que são excepcionais. Essa região vai se tornar num futuro próximo um pequeno Vale dos Vinhedos”, vislumbra o produtor Ronaldo Triacca, proprietário da Villa Triacca Eco Pousada e Vinhos e um dos dez sócios da Vinícola Brasília.

Na última sexta-feira (27), Triacca recebeu um grupo de 40 empregados da Embrapa Cerrados que realizaram uma visita técnica à Villa Triacca e à Vinícola Brasília. O objetivo da visita foi conhecer de perto as operações e inovações implementadas, além de identificar potenciais demandas de pesquisa.

“Essa visita técnica também está alinhada com a proposta do projeto conjunto que está sendo articulado voltado à produção de vinhos de inverno no DF, iniciativa estratégica para diversificação da agricultura local com agregação de valor”, destacou o chefe de Pesquisa & Desenvolvimento da Embrapa Cerrados, Eduardo Alano.

A Embrapa articula esse projeto de pesquisa que será voltado à validação de tecnologias vitivinícolas já desenvolvidas pela instituição, além do aprimoramento do sistema de produção para a elaboração de vinhos de inverno no DF, com o objetivo de fortalecer e expandir essa nova cadeia produtiva.

Segundo Alano, o projeto será desenvolvido em uma colaboração entre a Embrapa Uva e Vinho (RS) e a Embrapa Cerrados (Planaltina-DF). A iniciativa contará também com a participação da Associação Nacional de Produtores de Vinho de Inverno (Anprovin) e da Coopa-DF.

A proposta do projeto surgiu após uma série de articulações e da escuta ativa às demandas do setor produtivo, como a necessidade de diversificação de cultivares copa (variedades de plantas enxertadas sobre um porta-enxerto); a indicação de porta-enxertos para as condições de solo e clima da região; questões relacionadas à irrigação (como, quando e quanto irrigar); manejo e época da poda de produção; ocorrência de desequilíbrio na maturação devido ao excesso de calor; e ajustes no manejo fitossanitário para reduzir o número de pulverizações durante o período chuvoso. O projeto também buscará soluções para reduzir custos de produção e aumentar a produtividade.

Experiência de sucesso

“A Villa Triacca nasceu da necessidade de diversificar nossas atividades. Percebemos que nossa propriedade tinha um grande potencial turístico. Essa história começou em 2011 e, hoje, estamos muito satisfeitos com todo o reconhecimento que conquistamos ao longo do tempo. Somos pequenos e não temos a pretensão de crescer em escala — nosso foco é evoluir sempre em qualidade, não em quantidade”, afirmou Triacca. Ele contou que sempre sonhou em produzir vinhos. “Mas, na minha cabeça, eu iria produzir vinhos coloniais, de mesa. O rumo dessa história mudou quando conheci a técnica da dupla poda, que permite a inversão do ciclo”, relatou.

Triacca detalhou o manejo adotado na região. “Fazemos dois ciclos de quase seis meses. Podamos em setembro (poda de formação). Em outubro, quando a planta emite os cachos, tiramos todos manualmente de propósito para a planta não produzir, o que leva as videiras a armazenarem nutrientes nos troncos, ramos e folhas”, explicou.

“Poderíamos fazer duas safras, mas não faríamos um vinho com tanta qualidade”, acrescentou. Segundo ele, as videiras são conduzidas até final de fevereiro, início de março, quando é feita a poda de produção. A colheita ocorre em julho e agosto, após a maturação dos frutos.

“Temos aqui no DF um conjunto de fatores que nos condiciona a ter um dos melhores vinhos do mundo”, celebrou. Para ele, o diferencial está mesmo no clima. “Grandes altitudes propiciam grandes amplitudes térmicas. E aqui na região temos essa característica. Isso para a complexidade do vinho é espetacular.”

Triacca também falou sobre os desafios enfrentados. “O início nunca é fácil, tivemos que treinar muita mão de obra. Hoje estamos conseguindo dominar bem a técnica do manejo. Agora, temos outro grande desafio: colocar esses vinhos no mercado”, ressaltou.

Segundo o produtor, muitos visitantes se surpreendem com o que encontram no local. “Não é à toa que estamos recebendo tantas premiações em tão pouco tempo. Profissionais de outras vinícolas ficam surpresos com o que estamos fazendo aqui. O estágio de qualidade que outras regiões produtoras de vinho do país levaram anos para alcançar, nós estamos conseguindo em menos de cinco anos”, comemorou.

A Villa Triacca possui seis hectares de vinhedos das castas tintas: Syrah, Marcelan, Tempranillo, Cabernet Franc, Sangiovese, Grenache e Nebiolo; e as Castas brancas: Sauvignon Blanc e Viognier.

Nos últimos meses, a propriedade iniciou uma nova experiência de cultivo: produção de uvas viníferas sob irrigação por pivô central. “O solo dessa área do pivô é pedregoso, o que baixava bastante a média de produtividade dos cereais. Como a gente precisava aumentar a área dos vinhedos, estamos começando a utilizar essa área de grãos e otimizando o pivô”, explicou.

O vinhedo foi plantado em novembro de 2024 e deve começar a produzir em março do ano que vem. O projeto começou com um hectare mas, segundo Triacca, a intenção é expandir para 15 hectares nos próximos anos.

Vinícola Brasília

Inaugurada em abril de 2024, a Vinícola Brasília é fruto da união de 10 famílias produtoras de uvas finas da região. “Cada produtor tem o seu vinhedo e sua marca própria. Cada um tem de cinco a seis rótulos e estamos debaixo desse guarda-chuva maior que é a Vinícola Brasília, que tem outros oito rótulos próprios”, explicou Triacca.

São cerca de 60 hectares cultivados, com uma produção média de 500 toneladas de uva. A capacidade atual de vinificação da Vinícola Brasília é de 400 litros por ano.

Todos os rótulos da Vinícola Brasília fazem referência à Capital Federal e às suas particularidades: Cobogó (vinho fino branco seco/Sauvignon Blanc), Pilotis (rosé seco), Croqui (tinto seco/corte de Malbec e Syrah), Alvorada (tinto nobre/Malbec) e Monumental (tinto nobre Syrah).

A identidade visual da vinícola também valoriza a brasilidade: a logomarca, a arquitetura e a decoração remetem a ícones de Brasília, como os azulejos em estilo Athos Bulcão na entrada — neste caso, desenhados com taças manchadas de vinho tinto.

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