A ideia de que existiria uma voz própria de pessoas negras é contestada pelo dossiê A Cor do Som, que também reúne relatos sobre desigualdades raciais na indústria do som e no audiovisual brasileiro. O estudo afirma que os timbres humanos são diversos e examina como escolhas técnicas, formas de falar e relações profissionais podem reproduzir hierarquias no setor.
Elaborado pela Semiótica Antirracista e pelo Estúdio Nina, o levantamento ouviu 24 pessoas. Participaram 18 profissionais negros das áreas técnica e criativa do audiovisual, quatro acadêmicos e duas personalidades envolvidas no debate racial. Os nomes das duas últimas não foram divulgados. O trabalho recebeu apoio da empresa Audiolivros e foi lançado no início do Novembro Negro, período dedicado à Consciência Negra.
Critérios para o som
Na análise da produção sonora, os pesquisadores afirmam que o audiovisual brasileiro segue um paradigma de origem europeia, colonial e elitista. O dossiê descreve como “higienização” a retirada de ruídos e interferências associados à rua, à praça e a outros espaços populares.
Segundo o estudo, operadores de som recebem orientações para seguir regras que levam a um áudio considerado o mais higienizado possível. Para os autores, esse procedimento pode descartar ruídos periféricos e marcas culturais afro-brasileiras. O levantamento defende a revisão da ideia de que as escolhas técnicas seriam neutras nas produções sonoras.
O dossiê também questiona a valorização predominante de uma norma-padrão da língua. De acordo com os pesquisadores, esse padrão cria uma hierarquia entre diferentes maneiras de falar e reduz a pluralidade linguística àquilo que é considerado erro.
Como referência, o estudo menciona o conceito de “Pretuguês”, associado à intelectual e ativista Lélia Gonzalez (1935-1994). A expressão é usada para descrever uma forma de falar português marcada por elementos fonéticos e sintáticos de línguas africanas. Entre os exemplos apresentados estão a troca do “L” pelo “R” em palavras como “problema” e a substituição do “LH” por “I”, como em “falha”.
Relatos sobre o mercado
As entrevistas registraram queixas sobre o tratamento recebido por profissionais negros em produtoras, estúdios e agências de publicidade. Entre os pontos relatados estão o pagamento inferior ao de profissionais brancos em funções equivalentes, contratações baseadas na aceitação de remunerações menores e dificuldade para cobrar valores compatíveis com a qualificação.
Os participantes também mencionaram a necessidade de trabalhar mais para demonstrar competência e a falta de reconhecimento por projetos que ajudaram a desenvolver. Um profissional da área criativa contou que acumulava tarefas como produção de palco, ligações telefônicas, edição e captação. Depois de reivindicar remuneração compatível com o trabalho, afirmou ter sido desligado por e-mail. Segundo o relato, outra pessoa foi contratada para a função.
Outro entrevistado disse que, embora fosse responsável por grande parte do trabalho e pelo desenvolvimento de um projeto, era pouco ouvido nas decisões. O dossiê registra ainda a percepção de que profissionais negros são direcionados com maior frequência a atividades técnicas e operacionais, enquanto funções de criação, pensamento e tomada de decisão permanecem mais associadas a pessoas brancas.
Identidade e reconhecimento
Parte dos depoimentos trata do enquadramento de trabalhadores a partir da raça ou da cor. Um dos entrevistados afirmou que ser identificado continuamente como “o negro” de determinado espaço profissional pode limitar sua trajetória. O estudo cita exemplos de profissionais apresentados como “o jornalista negro”, “o escritor negro” ou “o roteirista negro”.
Outra questão apontada é a classificação de produções realizadas por pessoas negras como obras destinadas a um público específico. Para os pesquisadores, essa lógica contribui para tratar essas produções como “de nicho”, enquanto obras feitas por pessoas brancas são vistas como voltadas ao público geral. Um dos profissionais ouvidos resumiu essa percepção ao dizer que aquilo que pessoas pretas produzem seria considerado escutado apenas por pessoas pretas.
O dossiê afirma que o silenciamento é um mecanismo recorrente do racismo e propõe repensar narrativas, fluxos de trabalho e os padrões que orientam a cadeia produtiva do áudio e do audiovisual. A pesquisa, porém, é qualitativa e reúne percepções dos entrevistados, sem apresentar dados quantitativos. Assim, os depoimentos documentam experiências e interpretações dos participantes, mas não permitem medir a frequência das situações descritas em todo o setor.
Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil







